Como me tornei uma Coffee Lover
Devo confessar a vocês que Café não era minha bebida favorita. Aliás, na infância, não tenho sequer uma lembrança de ter provado.
Meu café da manhã era com bebidas lácteas (Mucilon de milho e de arroz, farinha láctea, Nescau, iogurte) porque minha mãe achava que só assim uma criança podia estar bem alimentada para ir à escola. Assim, no meu imaginário apenas adultos, que não precisavam mais crescer, tomavam café. Quando íamos na casa de alguém que ofereciam um cafezinho, nós crianças nunca éramos incluídos, os adultos queriam mesmo era privacidade.
Lembro-me da minha tia Jacira, uma das pessoas adultas que eu mais admirava e queria copiar, bebendo café quase que o dia inteiro no copo de âmbar de duralex (aquele que vinha com conjuntinho de xicaras, pratos, que toda casa dos anos 90 tinha 😉). Eu pensava que quem bebia café no copo de 300ml, e ainda sem leite, devia ser alguém especial e eu me perguntava se quando eu fosse adulta eu ia conseguir beber tanto café. Boba, eu! 😏
No início da minha pré-adolescência, minha família passou por algumas dificuldades financeiras e toda aquela “fartura” láctea reduziu-se a apenas o leite (e graças a Deus que ainda tínhamos leite em pó, amém!). Foi aí então que o café finalmente entrou na minha vida. A princípio, eu comecei a associar a bebida a falta de dinheiro, afinal, nós só podíamos tomar café com duas colheres de sobremesa de leite em pó; e eu e minhas irmãs fiscalizávamos uma a outra para ver se a medida da colher estava certa. 😅
Na faculdade, o café virou sinônimo de estimulante. Sentir o cheiro pela manhã era um despertador natural e beber café de madrugada para estudar passou a ser uma rotina, já que o guaraná em pó começou a me dar arritmia.
Lá pelos meus vinte três anos, comecei a trabalhar embarcada no Rio de Janeiro e foi então que minha paixão por café começou. A solidão na plataforma era uma constante, afinal ficar quatorze dias confinados, longe da nossa casa, e da família, podia ser bem complicado; até então eu não sabia, mas havia algo que me ajudaria a aquietar o coração.
A cada setor que eu visitava para conhecer, tinha um nicho com lanchinhos e café; Logo minha amiga e mentora Juliana me apresentou a um setor chamado Facilidades. O armário do café (que funcionava como uma mesinha de apoio) ficava atrás de um armário enorme com painel eletrônico desativado, bem escondido. Sempre embarcávamos na mesma turma (turma um), e, nesse setor e nessa turma específica, existia uma espécie de “padrão” a ser seguido no preparo de café. Eles passavam a água duas vezes pela cafeteira, sem o pó, para chegar a um determinado padrão de temperatura e havia uma medida de pó (tudo isso no olhômetro) que só eles sabiam como fazer. De alguma forma, era o preparo que mais agradava ao nosso paladar; se alguém de fora fizesse o café, nós já percebíamos a diferença. Logicamente, boa parte da nossa preferência pelo café desse setor, era porque nossos amigos eram pessoas agradáveis, gentis, e, muito bem-informados sobre tudo.🤭
Sem saber, ali eu dava meus primeiros passos em ser uma contadora de histórias. Ouvir e contar histórias, algo que sempre me agradou, agora tinha a temperatura, o aroma e o sabor do café.
Nosso cafezinho acabou virando uma rotina para escapar da ansiedade e tristeza que apareciam durante o confinamento (segundo a Ju o “dozésimo” dia era o pior deles! rs). Café também começou a ser sinônimo de sororidade: “Vamos tomar um café com a Fê?” “Vou lá rapidinho tomar um café com a Gisa” e era assim também que nós, as poucas mulheres que trabalhavam numa plataforma marítima davam apoio uma a outra durante o dia❤.
Havia dias bons e ruins, nos bons o café fazia parte da alegria, nos ruins, era um consolo.
Parei de trabalhar embarcada, voltei para Bahia e acabei trazendo o padrão do café “Facilidades”, que alguns dos meus colegas baianos acabaram apelidando de “café de plataforma”. E desde então, a “resenha”, como a gente chama aqui em Salvador a conversa entre amigos, parece que ficou melhor quando acompanhado de um café. Escutei (e ainda escuto) as melhores histórias, a maioria delas é combustível para algum livro que estou escrevendo.
Meu amor só foi aumentando a cada dia, a cada companhia agradável que me chamava para ir tomar um café.
Passei a ir às cafeterias como hobby, provar sabores diferentes até encontrar o meu preferido de cada lugar. Bebo café em casa, sozinha ou acompanhada, no shopping, quando encontro um vendedor ambulante de cafezinho, e, se numa livraria encontro um cantinho do café, para mim é como se eu estivesse no céu. Meu próximo marco será beber um café na Starbucks aqui em Salvador e fazer um curso de barista. 🙌
Já cheguei a ficar fanática ao ponto de achar que pessoas que não gostam de café são estranhas? Sim! (🙊). Mas a autora e amiga Lais dos Passos, tratou de quebrar esse estereótipo; ela não gosta de café e é umas das melhores pessoas que eu conheço!
Ah, sabe aquela criança que achava que café era coisa de adulta? Bem, eu não cresci muito, mas agora sou adulta e posso tomar um copão de café… e como eu gosto do copão de café!
Tia Jaci, agora sim. Somos do mesmo clube!